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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Capítulo Cinco


Quarta-feira, 18 de outubro

Sim, sim, sim! Hoje foi simplesmente demais, nem sei se vou conseguir dormir. Antes de entrar em detalhes, devo dizer que até dançar com Chay na festa de Patrick Mayor no fim de semana passado, meu progresso com ele não vinha sendo lá muito grande. Na verdade, tinha sido o mínimo.


Exemplo: numa ocasião, depois de várias semanas ajudando o Chay no trabalho de redação, eu estava olhando para ele por cima de um livro de poesias de Wallace Stevens. Ele percebeu que eu olhava e me perguntou:

- O que foi? Meu rosto está sujo?

Então sem pensar respondi:

- Ah, eu só estava aqui sentada, sonhando acordada com o fim de semana. O que você vai fazer no sábado à noite?

Grande sacada, certo? Errado! Ele respondeu:

- Sábado eu tenho ensaio com a banda.

- Ahhh...- Foi minha resposta, e voltei ao livro de Wallace Stevens.

- E você, vai ter um encontro com quem? - Ele perguntou em seguida.

- Encontro?- Engoli em seco.

- Sim. Você disse que estava sonhando sobre o final de semana. Então deduzi que você deve ter um encontro, que é sobre o que eu costumo fantasiar.

- Ah, ninguém que você conheça. - Desconversei de modo meio esfarrapado.
Já tinha dado toques demais.

Uma semana depois Chay me perguntou como estava indo o romance com meu misterioso namorado e, sorrindo enigmaticamente (bem, pelo menos esperava que sim), respondi que não tinha dado certo. Ele não respondeu, mas me deu uma olhada muito significativa. Depois comentou:

- Você realmente mudou muito, Lua. Antes você era mais uma garota do tipo grande amiga, mas agora... sei lá... agora é mais como uma mulher.

Daí ele saiu andando, sem perceber que meu coração estava quase saindo pela boca.

Então, depois da aula de redação, Chay me pegou pela mão e puxou para uma sala de laboratório vazia. Ele me abraçou e começou a dançar igual na sexta-feira passada. Ele parou e disse exatamente:

- Que tal se a gente fosse dançar mais no sábado à noite?

Admito que foi uma situação meio boboca e antiquada, mas o que é que tem isso? O que importa é que ele me convidou para um encontro de verdade. Claro que, quando contei para o Arthur, eu estava meio gaguejante e ele tirou o maior sarro da minha cara. Mas, pergunto de novo, qual o problema? Agora só preciso fazer acontecer no sábado...

Engraçado como na vida da gente, o tempo às vezes parece voar e, em outras simplesmente parece que pára, desafiando qualquer conceito lógico! Eu explico. Meus dois primeiros anos de colégio rastejaram como se o tempo fosse uma tortura. Cada aula parecia que ia durar até o próximo século, as noites de sexta-feira se arrastavam interminavelmente e as tardes de domingo eram como uma sentença de prisão dentro da biblioteca.

No último ano tudo mudou. Nas primeiras semanas de outubro minha vida quase me deixou tonta. Entre minha paquera com Chay, papeando com Arthur e estudando, eu me senti como se estivesse em ação durante as vinte e quatro horas do dia. Percebi também que, com um pouco de maquiagem, meus olhos ficavam exatamente como Arthur sempre disse que gostava. Também estive trabalhando como babá, em alguns dias da semana depois das aulas e ganhando uma grana (nem me importei que viesse na forma de notas amarrotadas, e não como um cheque limpo e profissional), o que me fazia sentir como uma adulta.

Quinta-feira de manhã acordei antes que o relógio tocasse. Meio no escuro, ainda fui tropeçando até o calendário quase em branco na parede. Peguei uma velha caneta com tinta perfumada (vermelho framboesa, mais exatamente) e marquei o dia 21 de setembro. Não era para não esquecer qual o dia em que tinha um encontro com Chay, só queria ficar acompanhando os dias que faltavam até a data.

Quando chegou o sábado (achava que o mundo ia acabar antes do final de semana), meu estômago dava voltas. Lá pelas seis horas me tranquei no banheiro para vomitar. Isso não foi muito legal.

Depois que me recuperei fiquei olhando para o dia marcado no calendário. Claro que sempre pensei naquele primeiro dia na biblioteca como o de nosso aniversário. Depois daquele dia estava certa - ou mais ou menos... bem, não, na verdade - de que iria vencer a aposta com Arthur. Ele com certeza se encheria da Pérola em uns dois meses, mas eu estaria namorando firme com Chay. Durante as aulas de redação ficava olhando para ele e pensando em nós dois, velhinhos, de cabelos brancos, rodeados de netinhos. Mel não conseguia acreditar que eu pudesse me comportar assim tão estupidamente, até agora ela nunca tinha me visto assim, caminhando nas nuvens. Na verdade, até hoje nem eu mesma tinha me visto assim, nas nuvens.

Lá pelas oito horas contemplava a mim mesma na frente do espelho em meu quarto. Estava com um vestido preto curto e casaquinho preto. Meu cabelo comprido caía pelo rosto e, nos lábios, tinha aplicado um batom rosa clarinho. Quando ouvi uma buzina lá fora, apanhei a bolsa e corri escadaria abaixo.

- Tchau. - Gritei para meus pais, que estavam assistindo TV no estúdio.

- O Arthur sempre vem até a porta. - Minha mãe comentou.

- O Arthur é um pateta.

Chay me esperava em seu jipe vermelho, mas o jipe tinha a capota abaixada e o vento desalinhara alguns fios de seu cabelo. Ele parecia muito bonito, e por um momento quase não acreditei que nós estávamos saindo para um encontro de verdade.

Ele se inclinou e empurrou, abrindo a pequena porta do jipe, enquanto sorria para mim. Entrei quase tendo um troço. Nós já tínhamos ficado sozinhos antes, mas sempre no meio de outras pessoas. Sentar perto de Chay e ver sua mão pegando a alavanca de câmbio me fez sentir como se apenas nós dois existíssemos no mundo.

- Poderíamos ir à pizzaria do Jon. - Sugeriu ele, enquanto eu tentava afivelar o cinto de segurança com as mãos tremendo.

- Legal. - Respondi baixinho.

Por algum tempo andamos em silêncio. No céu as estrelas já brilhavam. Olhei e escolhi a mais brilhante. “LUZ DA ESTRELA, BRILHO ESTELAR, À PRIMEIRA ESTRELA QUE VEJO ESTA NOITE, EU PEÇO, EU DESEJO...VENCER A APOSTA COM ARTHUR". “Estou pronta para me apaixonar” pensei. Por uma questão de ênfase, fechei os olhos e visualizei a estrela em minha mente.

Quando abri os olhos, Chay estava me olhando com uma expressão de encanto.

- Olho para você e suspiro. – disse ele - Você é linda.

Meu coração acelerou. Chay acabara de citar uma frase do poema "Uma canção para beber", de Willian Butler Yeats, um dos que selecionei para ele incluir em seu trabalho de redação de algumas semanas atrás. Sua voz era profunda e rouca, produzindo calafrios que me percorriam a espinha.

Jon faz uma pizza na pedra deliciosa, e era um lugar muito popular na época. Estivera lá um milhão de vezes com Arthur e Mel, sempre secretamente invejando os casais sentados nas mesas ao longo da parede do restaurante. Agora estava radiante toda garota lá olharia para nós desejando estar em meu lugar.

- Gosto de pepperoni – ele falou quando nos sentamos.

Olhei para o menu. Arthur e eu gostávamos de inventar combinações de pizzas. Nossa favorita era berinjela, bacon e cogumelos.

- Para mim está bom. – concordei.

Chay recostou-se apoiando às mãos sobre a mesa. Sem saber bem o que conversar, fiz o mesmo. De repente ele se inclinou para a frente.

- Então você e Arthur Aguiar não têm nenhum caso? – perguntou.

Gelei.

- O quê?

- Você e o Arthur. Todo mundo na escola sabe que vocês dois são como dois irmãos siameses.

Não pude resistir à risada. Arthur tinha tido umas vinte namoradas só nos últimos dois anos. Será que o Chay pensava que eu era o tipo de garota capaz de se envolver com um cara que vivia correndo atrás de outras?

- Arthur tem um monte de namoradas, mas definitivamente não sou uma delas. Nós somos apenas amigos.

Chay fez o pedido à garçonete e, olhando para mim, levantou as sobrancelhas.

- Não acredito que pessoas de sexos diferentes possam ser amigas. – afirmou - Acho que sempre vai haver uma certa... tensão.

- Não no meu caso. – respondi rapidamente.

Estava desesperada para mudar de assunto, mas ao mesmo tempo curiosa para saber o que as pessoas pensavam sobre minha amizade com Arthur. Alguém seria capaz de acreditar que eu e ele fossemos namorados? Será que todos achavam mesmo que eu me limitava a ficar sentada, esperando pacientemente enquanto ele saía para namorar todas as garotas da escola? Era um pensamento humilhante. Sempre me vi como uma mulher forte e indomável, não o tipo que aceita um segundo lugar. Mas poderia ser que os outros não me enxergassem desse modo. Talvez me considerassem uma bonequinha apaixonada.

- Bem, de uma coisa eu sei. – disse ele, pegando na minha mão.

- O quê?

Os pensamentos sobre Arthur fugiram de minha cabeça assim que senti seus dedos fortes que se entrelaçavam com os meus.

- Nós dois nunca poderemos ser amigos.

Seus olhos brilhavam e seus lábios vermelhos pareciam irresistíveis.

- Por quê? - murmurei

- Porque eu sempre vou querer beijar você, assim como estou querendo agora.

Precisamente nesse instante a garçonete veio trazer nossos refrigerantes. Isso quebrou a tensão, mas eu tinha certeza que meu rosto estava em brasa. Não sabia como interpretar tudo que Chay dizia. Por um lado, sonhava com esse momento. Por outro, a situação não parecia muito real. Sempre pensei que um romance florescesse como um turbilhão. Eu me imaginava trocando frases poéticas e olhares apaixonados com meu amado. No entanto, ali estava o Chay, me falando daquele modo e eu totalmente sem graça. Ele quase não me conhecia de verdade, pensei. Será que aquelas palavras eram sinceras?

Mais tarde a garçonete veio trazer nossa pizza. Enquanto via Chay cortando um pedaço e dando uma grande mordida, outro pensamento me veio a cabeça. Se Chay fosse mesmo tão legal, por que iria me querer? Afinal de contas, ninguém jamais tinha se interessado por mim.

Apesar de sentir o estômago embrulhado, resolvi também começar a comer meu pedaço de pizza. Chay me olhava intensamente, e quase me engasguei com o queijo, que pareceu entalar na garganta, impedindo-me de respirar direito. Tossi e tomei um grande gole do meu refrigerante. Imaginei então que, se ele tivesse sentido alguma atração por mim, eu acabara de arruinar minhas chances. Esse pensamento provocou uma estranha sensação excitante. Sempre adorei um desafio.

- Então, Chay, o que você acha das aulas de redação? - Perguntei, tentando levar o assunto para um campo mais seguro.

- Redação é muito legal. – respondeu ele.

- Acha mesmo?

-Claro. Acho até que vou escrever algumas das letras de música para a minha banda. Normalmente quem escreve é outro, mas suas poesias são muito sem graça.

Ele pegou outro pedaço e um guardanapo.

- Que bom. Eu gostaria de ler algumas de suas letras de música qualquer dia destes, se você deixar.

- Acho que vou compor uma musica para você.

Novamente fiquei envergonhada. Olhei para baixo, concentrando-me na comida. Flertar não era o meu ponto forte e, mesmo me esforçando, não conseguia achar nada de interessante para dizer em resposta.

Chay parecia não gostar de falar enquanto comia, e então fiquei prestando atenção nas conversas das outras mesas. Sempre que estou nervosa, consigo me acalmar prestando atenção em alguma outra coisa que não em mim mesma. Este era um truque que minha mãe tinha me ensinado.

Ouvia o que as pessoas atrás de nós nas mesas falavam. A primeira voz era de uma garota que já havia visto quando entramos no Jon’s.

- Papai me tomou o cartão de credito por um mês. Ele ficou histérico só porque comprei uma jaqueta de couro na semana passada, pode? Nunca vi um cara tão chato!

Revirei os olhos. Se eu usasse o cartão de credito do meu pai, ficaria trancada em meu quarto por um ano de castigo.

- Não é justo! – disse o garoto ao lado dela – Será que ele não percebe que, sem cartão, você não é ninguém?

- O que eu posso fazer? Ele não tem noção do que é ser jovem. Estou pensando em processá-lo por negligencia e abandono.

Dei uma risada alta. A conversa atrás de nós parecia a fala de personagens de um filme de segunda categoria. Pode uma coisa dessas?

- Você ouviu esses dois? - Cochichei para Chay.

Ele negou balançando a cabeça.

- O que estão conversando?

Limpei a garganta e me preparei para fazer uma imitação de uma garotinha rica. Era uma mistura se sra. Howell do programa ‘A ilha de Gilligan’ e aquilo que imaginava ser a voz de uma aristocrata.

- É tãããão cruel. – imitei a garotinha - Papai tirou meu Roll’s Royce. Ele me obrigou a ficar com a BMW. Estou tãããão humilhada.

Tornei a rir.

O rosto de Chay estava totalmente inexpressivo. Ao ouvir a voz delas, sussurrei sacudindo a cabeça na direção da mesa do casal.

- Escute.

- Adorei a reforma que fizeram no clube de campo. – comentou a garota - Mas acho que o painel de mogno atrás da churrasqueira ficou exagerado.

Pisquei para Chay, mas ele olhava para mim como se eu estivesse maluca. Pelo jeito, não achara a menor graça na minha imitação. Suspirei. Se o Arthur estivesse comigo, quando imitei a menina ele teria imitado a outra. Provavelmente ficaríamos imitando as duas pelo resto da noite e rindo o tempo todo.

Fiquei envergonhada quando vi que Chay estava sério. Reconheço que não era muito simpático fazer pouco de outras pessoas. Percebi, que para Buffy (o nome que inventei para a garota que imitei), ficar sem o cartão de crédito era mesmo uma grande tragédia.

Chay empurrou seu prato vazio.

- Sabe, o Radio Waves está se preparando para assinar contrato com uma gravadora independente. Poderemos lançar um CD daqui a um ano.

Fiquei impressionada. Imediatamente me vi como a namorada de um astro do rock...
Poderia ir ao camarim, andar de limusine, ingressos grátis.

- Ah é? Você me mostrará as músicas em particular, antes do lançamento? - Perguntei, enquanto abria um grande sorriso.

"Isso", pensei. "Acabei de flertar". Não foi nada fácil e me senti meio idiota, mas sobrevivi. Talvez até o lançamento do CD do Chay eu já seja uma perita em flerte.

Ele colocou a mão por baixo da mesa e bateu no meu joelho.

- No momento que você quiser Lua, quando quiser.

Eram quase onze horas quando voltamos para casa. Eu estava nervosa e procurava pela maçaneta da porta do carro. Mas Chay me pegou pelo braço e puxou.

- Você é um barato, Lua. - murmurou.

Um barato? Essa não era a expressão que eu esperava ouvir.

- Gostaria de ter você sempre por perto. – ele acrescentou.

Então se inclinou para a frente e me beijou. A única coisa que pude pensar naquele instante foi: "Oh, Meu Deus, estou realmente beijando Chay Suede!". Mas então relaxei um pouco e me concentrei em seus lábios quentes e macios. Fiquei contente por estar sentada, porque meus joelhos tremiam, e se estivesse em pé provavelmente perderia o equilíbrio.

Beijei também tentando não pensar em minhas mãos suadas e que meu hálito provavelmente estava cheirando a queijo. Quando ele se afastou, eu me sentia trêmula e desorientada.

- Bons sonhos, Lua. – murmurou.

Enquanto caminhava para casa, refleti que "bons sonhos" era aquilo que Arthur sempre me desejava. Por algum motivo, a expressão me pareceu imensamente diferente vindo de um rapaz que tinha acabado de me beijar na boca.

Domingo de manhã fui até a casa dos Jonhson. Em certos dias da semana tomo conta de Nina, a filha deles de dez anos. Quando cheguei, Nina estava no jardim praticando alguns passos de dança. Desde que ela ficara sabendo que eu ensinava dança, insistia em estabelecer essa como sua prioridade número um. A prioridade número dois era bater papo com os garotos da sua escola Lincoln.

- Ei, Nina. – cumprimentei - Está ensaiando aquela seqüência de passos que ensinei na quinta-feira?

Andei pela calçada e desabei sobre a grama. Tinha dormido pouco à noite, pensando em meu encontro com Chay, e a falta de sono tem seu preço.

- Claro. Quer me ver dançar com música?

Ela saltitava enquanto esperava minha resposta.

- Gostaria muito. Por que não vai buscar seu CD player portátil? Eu espero aqui.

Fechei os olhos contra a claridade do sol e fiquei contente por ainda estar quente o bastante para ficar no jardim.

Em seguida Nina voltou com seus pais e o toca fitas pendurado pela alça. Enquanto eles gritavam instruções de última hora, Nina colocava o CD que gravei para ela.

A garotinha praticava a rotina pela décima quinta vez quando Arthur apareceu. Ele adorava ir me encontrar nos Jonhson porque Nina tinha simplesmente veneração por ele.

Nina interrompeu a seqüência e correu para ele.

- Quer ver minha nova dança? – perguntou.

Ele caminhou até a escada e sentou-se no primeiro degrau.

- Claro que quero. Ou você pensa que eu vim até aqui só para ver a Lua?

Nina deu uma risada e foi preparar o CD. Eu me sentei perto de Arthur, aliviada. Às vezes uma garotinha de dez anos tem mais energia do que posso dar conta.

- Então, como foi o grande encontro ontem à noite? - Perguntou, enquanto contemplava Nina saltitando feliz pelo gramado.

- Maravilhoso.

Imaginei se Arthur poderia saber, apenas me olhando, que Chay tinha me beijado. Ainda lembrava do toque gentil de seus lábios nos meus.

Ele me olhou levantando as sobrancelhas.

- Tem certeza de que você não está dizendo isso só para ganhar a aposta?

- Fique sabendo que essa nossa aposta idiota é a última coisa que me preocupa agora.

Era mentira, mas estava cheia do Arthur ficar lendo nas entrelinhas o tempo todo.

- Você não achou o cara um chato? - Arthur bateu palmas quando Nina terminou a dança e fez uma reverência. - BIS!!!

Fiz um sinal para Nina recomeçar a dança e virei-me para ele.

- Só para você ficar sabendo o Radio Waves está para assinar contrato com uma gravadora independente – revelei, melindrando.

Arthur ficou bravo.

- Em primeiro lugar, fique sabendo que Chay já vem dizendo isso há mais de um ano. Aqueles caras têm tanta chance de entrar no mundo da música quanto eu! Em segundo lugar, você não respondeu a minha pergunta. Ele é ou não é um chato?

- Ele é fascinante. E, o que é mais importante, acha que eu sou fascinante.

- Não duvido – Arthur retrucou - Para ele, depois de namorar com Sophia Abrahão, você poderia ter a aparência que tivesse.

- Obrigada pelo cumprimento.

Arthur estava começando a me irritar. Apesar de nossa aposta, eu tinha chegado a pensar que ele ficaria feliz se eu arranjasse um namorado. No dia do trabalho ele parecia se importar muito com essa perspectiva.

- Desculpe. De verdade. Mas me diga só mais uma coisa.

- O quê? – perguntei, suspirando profundamente.

- Quantas vezes ele se olhou no espelho para arrumar o cabelo?

Tive de dar risada. Chay era muito vaidoso. Cheguei a surpreendê-lo tentando ver seu reflexo na forma de pizza metálica vazia.

Arthur começou a imitar o Chay se enfeitando diante de um espelho, e caímos os dois na gargalhada. Bem nesse preciso instante Nina terminou a dança e deve ter pensado que nós dois estávamos malucos.

Caminhei com Arthur até o carro e deixei Nina recolhendo as coisas para levar para dentro, a fim de que pudéssemos entrar e preparar o almoço. Ela mostrava-se desapontada porque Arthur estava indo embora. Adorava ficar se exibindo diante dele.

- Agora, falando sério. Até que ponto você gosta do Chay? - Abriu a porta do carro e ficou me olhando.

Fiquei quieta por um instante. Nunca havia pensado que um cara como o Chay seria meu namorado. Eu seria uma doida se deixasse passar uma oportunidade como aquela. Mesmo que mais tarde acontecesse de terminar com ele e ficar de coração partido, eu tinha de encarar a batalha.

- Gosto muito dele. – confessei finalmente - Acho que pode ser o cara certo para mim.

Arthur balançou a cabeça.

- Bem, não pegue a tesoura ainda. Muita coisa pode acontecer de agora até o Baile de Inverno. Muita coisa.

Arthur acelerou, cantando pneu, em direção à avenida. Enquanto observava seu carro desaparecer na esquina, tive a clara sensação de que meu melhor amigo tinha um problema.

Mas quando era que ele não tinha, afinal?




Comentes?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Capítulo Quatro


Quinta-feira, 12 de setembro

Nove horas da manhã.

Puxa! Já se passaram seis semanas de aula, mas até parecem seis dias. Ainda não saí com Pérola, mas tenho conversado com ela muitas vezes. Hoje nós tivemos um papo interessante.

- Você vai ao jogo de futebol amanhã? – perguntei.

- Por que iria? – retrucou ela.

Dei de ombros.

- Eu vou estar lá.

Ela sorriu tão longa e demoradamente que me deu vontade de agarrá-la e beijar aqueles lábios vermelhos.

- Bom, se é assim então acho melhor consultar a minha agenda – disse.

Na aula de orientação de hoje não pude falar com ela frente a frente. Mas tenho a impressão de que ela vai ao jogo. Acho que amanhã vai ser uma grande noite. Lua vai ficar chateada por eu estar ganhando a aposta, mas isso é problema dela. De qualquer jeito ela não vai cair na real em relação a Chay Suede. Só por que esta ajudando o cara nas tarefas de redação, ela pensa que esta apaixonada. Mas, pelo que ela me contou, Chay não é lá muito bom de papo. Meio sem querer, peguei uma conversa dos dois na biblioteca e tive que tapar a boca pra não dar uma risada.

Lua (falando de um livro que tinha na mão): Eu adorei 1984. O que você achou?

Chay: Gostei. Foi um ano legal. Eu adorava andar de skate naquela época.

Lua: Mas eu estava falando do livro de George Orwell. Aquele sobre o futuro.

Chay: Ah, sim. Acho que assisti o filme na tv. É aquele sobre o computador chamado Hal, não é?

Lua: Ah, é sim...

Quando será que ela vai enxergar que:

1) O cara só tem aquele cabelo e outras coisas horrorosas porque as garotas adoram.

2) Ele ainda sonha com a Sophia-qualquer-coisa.

Acho que preciso ter uma conversa de verdade com ela. A vida da Lua está ficando quase ridícula.

- Arthur, você tem de fazer alguma coisa em relação a esse carro. - disse Lua enquanto chegávamos ao colégio na sexta-feira.

- Por quê? – respondi, procurando um lugar grande o suficiente para que coubesse meu Oldsmobile 1972.

- Está nojento. Eu acho que até tem alguma coisa nascendo dentro daquela garrafa.

Ela me mostrou então uma garrafa plástica com um líquido meio esverdeado balançando lá dentro. Depois apontou para o assoalho, ao lado do passageiro, onde seus pés se apoiavam sobre uma pilha de jornais velhos e latinhas vazias de refrigerante.

- Está certo. Como pagamento pela carona até o estádio de futebol, porque você não dá uma limpada no meu carro? Eu até passo com ele pela sua casa amanhã, só para facilitar as coisas pra você.

Estacionei o Oldsmobile entre um pequeno Toyota e um Fiat, enquanto Lua destravava o cinto de segurança.

- Sem chance. Provavelmente iria parar no hospital, vítima de algum veneno criado aqui.

Fechamos as portas e fomos para o estádio. Parecia que todo o colégio Elite Way tinha vindo assistir o primeiro jogo dos Raiders da temporada.

Lua se enveredou pelo meio do amontoado de calouros que zanzavam fazendo hora perto das arquibancadas. Ela foi abrindo caminho em direção à parte mais alta das arquibancadas onde Mel Fronckowiak e Mike Feldman já estavam sentados.

- Oi pessoal – cumprimentou Lua – Já entraram no clima do jogo dos Raiders?
Mel fez careta.

- Claro. Mal posso esperar para começar a torcer. Adoro assistir a Amanda Wright chacoalhando seus pompons.

- Que coincidência! Eu também! – disse Mike, mexendo com suas sobrancelhas pretas.

- Então por que a gente vem assistir? – Lua perguntou a Mel, enquanto se sentava perto de mim – Até parece que a gente gosta de futebol.

- Estamos aqui pela mesma razão que todas as outras garotas – respondeu Mel – Esperamos encontrar nosso verdadeiro amor nas arquibancadas do colégio.

Desliguei da conversa das duas e olhei as arquibancadas. Mesmo achando que a Pérola não aparecia no jogo de futebol, tinha uma pequena esperança no intimo de que poderia topar de repente com aquele cabelo escuro e aqueles olhos brilhantes no meio da multidão.

Pérola e eu tínhamos conversado durante todos os dias daquela semana. Ela andava flertando comigo, sorrindo, jogando o cabelo para trás de modo provocante e tinha olhado para mim de um modo especial. Porém depois da aula de orientação ela sempre desaparecia pelo saguão, e até aquele momento eu não tivera oportunidade de combinar um encontro. Mas sabia que ainda conseguiria. Toda vez que a via entrando na sala de Maughn com se fosse a dona do colégio, eu tinha a certeza que não descansaria enquanto não a beijasse.

Meu coração veio parar na boca quando vi Pérola, sentada com um panfleto de futebol nas mãos, do outro lado das arquibancadas. De agasalho e uma camiseta preta justinha, mesmo daquela distância pude perceber que ela estava linda. E, o melhor de tudo, sozinha. Era exatamente a oportunidade que esperava.

Quando me levantei senti Lua me puxar pelo bolso de trás de meu jeans.

- Aonde é que você vai? A gente acabou de chegar.

- Vi o Micael. – respondi, apontando para algum lugar nas arquibancadas do outro lado do campo - Vou até lá conversar com ele.

Não estava a fim de agüentar as gozações de duas amigas sobre ir paquerar uma garota. Não tinha certeza se Pérola me receberia bem ou não e, se tivesse de voltar sem conseguir nada. Não queria que todos ficassem comentando pelo resto da noite.

Antes que alguém dissesse alguma coisa, me mandei arquibancada abaixo, de olho no ponto onde Pérola estava sentada. Para o caso de Lua estar olhando fui para o lado da numeradas e fiquei na fila por alguns minutos. Dei uma espiada no placar e vi que os do Elite ganhavam por 1 a 0, dando-me conta subitamente de que até o momento não tinha assistido um minuto do jogo. Corri para o lado das arquibancadas em direção a Pérola.

À noite ela parecia ainda mais bonita do que às cinco para as nove da manhã. Seu cabelo brilhava ainda mais sob as luzes dos refletores do estádio. Quando me viu caminhando em sua direção, sorriu e deslizou para o lado do assento. Entendi que era um convite para que me sentasse ao seu lado.

- O Doce Arthur. Como está? – ela cumprimentou quando me aproximei. O pessoal tem me chamado por esse apelido para fazer graça sobre minhas conquistas. Normalmente isso me irrita um pouco. Mas, vindo dos lábios dela, o apelido acendeu uma esperança.

- Tudo legal, vim para assistir ao jogo.

Quando me sentei a seu lado dei um jeito para que nossos joelhos se tocassem. Mesmo esbarrando pela calça jeans, pude sentir um choque percorrendo minha perna de cima a baixo.

Pérola olhou para o campo e suspirou.

- Eu ia ficar em casa hoje, mas é tão solitário. Não consigo ficar assistindo aos programas de tv de sexta à noite.

Concordei balançando com a cabeça e quase não acreditando na minha boa sorte. Claro que ela estava procurando alguém para curtir a noite. Com certeza era uma garota tímida e sensível e talvez fosse por isso que sempre saia tão depressa depois dos períodos de aula.

- Não esquenta, Pérola. Eu posso ser seu guia pelos próximos jogos das noites de sexta-feira no colégio Elite Way.

Ela deu uma risadinha e chegou um pouco mais perto.

- Ouvi algumas garotas comentando que vai ter uma festa na casa de Patrick Mayor depois do jogo.

Suspirei disfarçadamente, pensei que depois nós poderíamos sair para comer um hambúrguer ou uma pizza. Patrick Mayor era um jogador de futebol de quem muita gente não gostava. Porem, se ela queria um pouco do outro lado do Elite Way, não seria eu quem iria contrariar sua vontade.

- Legal. Vou falar com a turma e vamos todos juntos. Você poderá conhecer um monte de pessoas.

- Quem são seus amigos? – perguntou ela.

- Bem, você conhece Micael Borges. Ele está em nossa turma de orientação.

- Sim. Ele joga futebol.

Confirmei meio surpreso por ela saber o esporte preferido do Micael. Vai ver ele tinha andado dando em cima dela quando eu não estava por perto. Típico.

- É isso, ele joga como centroavante.

- Quem mais?

Ela olhava para mim com expectativa e não pude deixar de reparar em seus cílios, os mais longos que já tinha visto.

Por um segundo fiquei indeciso. Achei que não ia pegar bem falar de Lua. Muita gente não compreendia nossa relação, e eu não queria que Pérola entendesse errado também. Contudo, se não falasse e ela descobrisse mais tarde que éramos grandes amigos, seria ainda pior. Disfarcei e procurei falar com a maior naturalidade possível.

- Lua Blanco é minha melhor amiga. Ela está sentada nas arquibancadas do outro lado, junto com nossos amigos.

Pérola olhou para o povão.

- Ela não é líder de torcida?

Dei uma risada. Imaginar Lua como líder de torcida era tão engraçado como se eu estivesse lá no campo comandando a turma. Lua não era do tipo de garota que veste uma minissaia e fica gritando as letras do nome de um jogador para pentelhar a torcida. Ela prefere sentar e fazer comentários cínicos a respeito da vida dos adolescentes do segundo grau de hoje em dia. Balancei a cabeça negativamente.

- Não, mas ela é dançarina. Ela ensina jazz durante o verão em um acampamento em Minnesota.

- Que legal. – disse Pérola, franzindo o nariz.

- Chega de falar da Lua. Conte mais sobre você senhorita Pérola.

Pérola ficou quieta durante um instante como se estivesse organizando os pensamentos.

- Bem, eu disse que era da cidade de Nova York.

- Disse sim.

Eu estava tentando prestar atenção no que ela falava, mas me distrai olhando uma mecha de cabelo castanho brilhoso que caía sobre seus olhos. Não pude resistir e, passando a mão coloquei o cabelo preso atrás de sua orelha.

- Já contei que nos mudamos para cá porque meu pai e minha mãe queriam que meu irmão e eu tivéssemos uma vida melhor em uma cidade pequena?

- Contou.

Continuei pensando em como era sedoso o seu cabelo que acabara de tocar. Ela não se afastara quando esbocei o gesto, o que achei promissor.

- Já disse que acho você uma gracinha? – ela mordeu o lábio ao falar, e ficou me olhando com aqueles longos cílios.

Fiquei momentaneamente tão chocado que não consegui responder nada. Mas me recuperei em seguida:

- Não, não me disse.

Ela fez que nem se importou.

- Então me lembre durante a festa que eu direi.

Sorri imaginando a Lua andando pela escola com aquele cabelo loiro oxigenado. Eu já podia sentir o gostinho da vitória.

O resultado do jogo foi 2 a 1. Foi uma grande vitória do Elite, para um começo de temporada, e todo mundo invadiu o campo para cumprimentar os jogadores, Peguei na mão de Pérola enquanto a gente andava pelo meio da multidão. Tinha certeza de que a Lua podia arranjar uma carona para casa com a Mel, mas se ela estivesse esperando por mim não queria deixá-la desapontada.

Ela não estava na arquibancada e, mesmo depois de dar uma volta pelo campo, não consegui encontrá-la em lugar algum. Pérola não gostou desse passeio pela praça de esportes do Elite Way e então decidi que Lua seria perfeitamente capaz de se virar sozinha.

- Podemos dar uma passadinha em casa para eu me trocar? – Ela perguntou enquanto nos dirigíamos a meu carro no estacionamento.

- Você está linda assim mesmo. – disse eu, admirando-a pela centésima vez naquele dia.

- Obrigada. Mas como não conheço o pessoal acho melhor eu não parecer desarrumada

Entramos no carro, o que terminou a conversa.

Enquanto dirigia para a casa dela fiquei pensando como iria se vestir, já que se achava desarrumada agora.

Algum tempo depois estava sentado na sala da casa dos Faria, esperando Pérola acabar de se arrumar. Os pais dela tinham saído e a casa permanecia silenciosa. A sala era grande com um pé direito alto e grandes portas francesas. A sra. Faria tinha instalado um carpete grosso cor de creme e colocado alguns quadros na parede.

- Meu irmãozinho ainda vai acabar com esse carpete – pude ouvi-la dizendo minutos depois. Ela estava parada na porta do corredor de saída e parecia maravilhosa. Trajava um vestido vermelho curto e decotado. Usava um colar tão fininho que parecia prestes a se arrebentar a qualquer instante.

- Tchau, desarrumada. – eu disse por pura gozação.

Ela deu uma voltinha e em seguida pegou em meu braço.

- Vou considerar isso um elogio. – respondeu bem humorada.

- Mas foi essa mesmo a intenção.

Saímos para a noite quente e gostosa e Pérola trancou a porta da casa. Caminhamos até o carro, e seu salto fazia pequenos ruídos contra a calçada. No escuro da noite, cada passo sussurrava uma promessa. Apesar do calor, experimentei um calafrio.

Quando chegamos a casa de Patrick Mayor, havia carros estacionados por todo o quarteirão. Paramos a umas dez casas de distância e seguimos juntos com uma turma de colegas do Elite Way até a porta da casa. Bem antes de chegar à entrada já se podia ouvir a música vindo de caixas acústicas potentes. Pérola agarrou a minha mão com força e retribui com um suave aperto. Imaginei como poderia ser constrangedor ficar andando por uma casa desconhecida cheia de pessoas estranhas.

De repente Micael saiu de dentro da casa de Patrick na maior correria. Atrás dele vinha uma garota gritando esganiçadamente com uma metralhadora de brinquedo espirrando água.

- Vou pegar você. – gritava ela, enquanto passava por nós feito uma bala.

Andrew correu para trás de mim como se eu fosse um escudo.

- Aqui é território neutro – gritou - Arthur é como se fosse a Suíça.

A garota que só então reconheci, era Carrie Starks (a número dez da lista do Micael) e baixou a arma de brinquedo.

- Está certo. – concordou ela - Mas estou esperando você lá dentro.

Micael saiu de trás de mim e me cumprimentou.

- Grande festa, não é?

Concordei de imediato.

- Realmente tem uma festa aí, é o que posso dizer.

Micael se abaixou para amarrar um dos tênis.

- O que aconteceu com você no jogo? Lua me disse que você tinha ido me procurar para conversar, mas não o encontrei. Quando disse que o não tinha visto, ela fez aquela cara de quem não gostou muito e murmurou alguma coisa sobre uma aposta.

Por um instante me senti culpado por largar Lua no estádio. Mas não havia porque me preocupar. Eu poderia muito bem telefonar para ela de manhã cedo para me desculpar. Em vez de responder a pergunta eu me virei para Pérola.

- Micael, você conhece a Pérola?

Ele olhou ainda abaixado e reparou pela primeira vez que ela estava comigo.

-Claro que conheço. Qualquer pessoa que tire sarro do Maughn é alguém que eu considero um amigo.

Micael se curvou diante dela e a beijou a mão.

- Eu não fiz de propósito para contrariar – insistiu ela – Acho que ele apenas costuma dizer a coisa errada na hora errada.

Micael e eu caímos na risada. Era um comentário suave diante do que tinha acontecido.

- De qualquer modo, Lua esta lá dentro – disse ele- Ela e Mel estão gastando o chão de tanto dançar.

- É mesmo?

Não sei por que fiquei surpreso em ouvir que minha amiga estava na festa. Provavelmente porque sempre era eu que a levava a todos os eventos sociais. Na maioria das vezes ela ficava irritada durante as festas e então começava a me perturbar para levá-la para embora para casa, no máximo depois de uma hora e meia.

- É isso aí, cara. Dá uma conferida.

Micael voltou correndo para dentro de casa, gritando cumprimentos para todos que encontrava pelo caminho.

Seguimos atrás dele e, enquanto entrávamos, eu ia dizendo o nome e fazia algum comentário sobre cada uma das pessoas que estavam no jardim. Pérolaparecia estar absorvendo cada palavra que ouvia, balançando a cabeça e prestando muita atenção a tudo o que se passava em volta.

Quando entramos, ela quis ir para perto de onde vinha a música. O tapete tinha sido enrolado e colocado em um canto na sala de Mayor, e todas as poltronas e sofás estavam encostados nas paredes.

Assim que entramos na sala, a música foi trocada e valeu como uma deixa para que eu tirasse Pérola para dançar. Ela me pareceu contente e, por isso, apertei um pouco mais meu braço contra a sua cintura.

Enquanto dançávamos pela sala, vi uma cena que me deixou de boca aberta. Lua estava dançando bem do nosso lado, quase ombro a ombro.

Seus olhos estavam fechados e sua cabeça se recostava contra o peito de Chay Suede. Eu não ficaria mais chocado se avistasse um elefante entrando de repente pelo meio da sala. Lua não era o tipo de garota que chama a atenção por estar dançando devagar e coladinha (na verdade, eles estavam parados se abraçando), bem no meio de uma festa lotada de gente.

Quando Lua abriu os olhos, ela me viu encarando-a de frente. Pensei que ficaria sem graça e se afastaria de Chay, mas não foi isso que aconteceu. Ela deu uma piscadinha e fez sinal de positivo.

- Oi, Arthur. - disse, parecendo muito orgulhosa de si mesma, como se dançar com Chay Suede fosse equivalente a ganhar o prêmio Nobel da Paz ou coisa parecida.

- Ah, oi. – respondi.

- Oi, Arthur. – Chay cumprimentou, dando-me um tapinha nas costas - Quem é a sua nova amiga?

Por uma fração de segundo esqueci o nome de Pérola. Mas isso não teve muita importância porque Lua respondeu.

- Pérola, certo? Eu sou Lua e esse é Chay.

Notei que Lua puxou Chay um pouco mais para perto, como se estivesse querendo indicar a Pérola que aquele era seu namorado.

- Oi, Chay. – respondeu Pérola, e não disse nada para Lua.

Houve um longo silêncio que me deixou desesperado para quebrar.

- A gente se encontra por aí mais tarde. - Falei, puxando Pérola para outro lado.

- É, pode ser. – Lua respondeu.

Mas ela nem me olhou. Encarava Chay, e de repente senti que alguma coisa muito importante estava acontecendo, algo como por exemplo, Lua estar me vencendo na aposta.

Esfreguei o queixo no cabelo macio de Pérola enquanto tinha uma visão desagradável de mim mesmo com a palavra "perdedor" escrita no corte de cabelo.

Não era uma cena muito bonita.

Conversei com Lua no domingo a noite.

- Então, como vai a adorável Pérola? - Ela perguntou assim que atendi ao telefone.

- Adorável. – respondi secamente.

Estava esperando que ela comentasse como tinha feito papel de boba agarrando o Chay.

- Sexta foi demais, não é?

- Incrível. – respondi. Ela não estava entendendo minha ironia.

- Uma pena que Pérola não seja o tipo de garota pela qual você poderia se apaixonar. Acho que estou na frente na corrida para achar o par perfeito.

- O QUÊ? – gritei. Agora ela estava me sacaneando de verdade. - Por que não deveria me apaixonar pela Pérola?

- Você não viu o jeito como ela ficou olhando para o Chay? Quase ficou vesga. Espero que Chay não a convide para sair. Ela é muito bonita.

- Ah, dá um tempo. A Pérola nunca sairia com o Chay. Ele é totalmente inferior a mim.

- Ele era, não era?

Lua deu uma risada.

- Por favor, desculpe. Esqueci com quem estava falando. Você é o maior cara do mundo.

- Não precisa vir com gozação. - Falei, me sentindo magoado.

Lua ficou quieta por um instante.

- Falei sério Arthur. Você é o melhor. É só observar quem escolhe como seus melhores amigos para a gente perceber isso.

Como sempre eu não conseguia ficar bravo com a Lua.

- Durma bem Lua.

- Durma bem Arthur.

Desliguei o telefone sorrindo. Lua Blanco era única, especial.

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