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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Capítulo Nove


Por que será que todo baile de colégio sempre tem um tema? Nunca tem uma festa só com luzes, uma banda e ponche. Deve ser alguma lei não escrita que os estudantes devam ser submetidos aos caprichos de um comitê de decoração. Para o Baile de Boas-Vindas o comitê escolheu o tema "Uma noite em Paris".


Admito que o ginásio estava bem bonito, para os padrões do colégio. Havia cordões de luzes em volta de todas as paredes, e até no teto, e alinhavam-se filas e filas daquelas mesinhas para café por todo o salão, com cadeiras de ferro e candelabros. Grandes painéis de lugares famosos em Paris pintados pelos estudantes estavam pendurados nas paredes. Bem embaixo da tabela de basquete destacava-se uma escultura da Torre Eiffel de papel machê. Não era exatamente um espetáculo magnificente, mas reconheço que o comitê havia se esforçado. Deviam ter gasto horas e horas instalando aquelas luzes.

Chay e eu chegamos mais cedo porque o Radio Waves precisava arrumar os equipamentos de som. Agora a banda já tocava, apesar de não ter chegado muita gente ainda. Eu me divertia olhando Chay cantar e observando as garotas que o viam cantar. Adorava a expressão embevecida em todos os rostos, o olhar vidrado que parecia o meu próprio olhar.

— O que você acha da divertida "Parri"? — Mel brincou, aproximando-se.

Por mais legal que fosse assistir à apresentação de Chay no palco, eu já estava cheia de ficar sozinha.

— Um lugar que merece uma visita. Mas onde está o Sena?

Mel deu uma risada.

— Se derramarem mais uns copos de ponche, vai ter um rio correndo bem no meio do ginásio.

— Ei, o que aconteceu com Sam?

O acompanhante de Mel era Sam, amigo de Chay. Eles vieram de carro com a gente, mas Sam não estava por perto.

— Deve estar jogando conversa fora com seus amiguinhos lá no estacionamento. Acho que a gente pode descartá-lo como candidato a namorado.

— Bom, você está linda. Fique de olho aberto que vai aparecer algum candidato.

Mel estava linda de verdade. Nós tínhamos voltado à loja e acabamos comprando os vestidos que tínhamos experimentado antes. Ela até parecia a rainha do baile. E acho que nem precisaria do tal sutiã milagroso.

— Na verdade, conheci um cara. Ele estava sozinho em pé ali pela Torre Eiffel. Acho que vou lá falar com ele. Partilhar opiniões culturais com um companheiro de viagem é sempre mais agradável.

Depois que Mel saiu, fiquei ali tomando um chá de cadeira. O ginásio já estava cheio de estudantes e parecia que não havia ninguém sozinho por ali. Eu me sentia cheia de tédio e frustrada. O Radio Waves iria tocar a noite toda e todo mundo estaria dançando na pista.

Meus sapatos novos estavam me matando e então decidi sentar em umas das mesinhas de café. Uma vez no lugar que escolhi, pude ver Arthur chegando com Pérola, Patrick Mayor e Carrie Starks. Sempre senti a presença de Arthur em uma sala. Nos últimos anos cheguei a desenvolver uma espécie de senso de percepção que me alertava quando ele andava por perto. Às vezes até achava que éramos como os irmãos gêmeos que se comunicavam por telepatia, aqueles que tinham se tornado tema de notícia e comentário no mundo todo.

Depois que vi o Arthur e a Pérola indo para a pista de dança, recostei minha cabeça na parede e fechei os olhos. Já tivera um dia bem cansativo e ainda tinha muitas horas pela frente.

Abri os olhos quando ouvi a voz de Chay falando no microfone.

— Eu gostaria de dedicar essa música a Lua Blanco — declarou com sua voz grave e rouca. — Ela é a minha Garota dos olhos castanhos.

Pelo menos uns cem pares de olhos imediatamente se voltaram para mim. Fiquei em pé e acenei para Chay, mesmo me sentindo um pouco envergonhada. Meu coração disparou. Nunca ninguém havia cantado para mim antes, era uma idéia bastante romântica. Olhando para o rosto sorridente de Chay, tive um calafrio de satisfação. Então o Radio Waves começou a tocar sua versão de Garota dos olhos castanhos, de Van Morrison. O ritmo era lento e apaixonado, perfeito para "Uma noite em Paris".

Mesmo ouvindo uma canção dedicada a mim, continuava me sentindo deprimida. Não tinha ido à pista de dança nem uma vez e agora teria de ficar em pé ali, ao lado, olhando todo mundo se divertir.

— Me dá o prazer desta dança, senhorita?

Virei-me rapidinho. Arthur chegou por trás de mim, com os olhos brilhando. Ele estava muito elegante e sofisticado em seu terno azul-claro e gravata xadrez. Tinha o cabelo escuro bem cortado e parecia um modelo de capa de revista.

— Será um prazer, senhor — respondi, segurando o seu braço.

Arthur olhava para o salão e pensei que procurava por Pérola. Errei.

— Parece que Micael não virá mesmo — comentou.

— Rachel Hall não veio também. Eu conferi.

Arthur balançou a cabeça.

— Que desperdício, não é? Vai ver os dois estão em casa se sentindo péssimos.

— Ainda bem que não somos nós — disse. Arthur me apertou um pouco mais.

— Ainda bem — concordou ele. Ficamos quietos por algum tempo.

Nós não dançávamos muito. Ele estivera em todos os bailes da escola, mas eu tinha ido apenas a alguns. E, normalmente, assim que eu chegava ao baile ficava imaginando um jeito de despistar meu acompanhante e dar o fora. Como já disse antes, nunca tivera sorte com namorados.

— Você está linda, Lua — ele disse me olhando nos olhos. Tínhamos ido parar no meio do salão e não pude deixar de sentir como seus braços estavam me apertando. Mas não era para menos, estávamos dançando uma música lenta e ele tinha de me apertar assim.

— Você acha mesmo? — perguntei.

Arthur nunca me elogiava, nosso estilo era mais de ficar gozando um com a cara do outro. Ele acenou com a cabeça:

— Claro.

— Obrigada. Mas... por que está sendo tão gentil? Já estou ficando preocupada.

Ouvia a voz sexy de Chay cantando a canção ao fundo, mas minha atenção se concentrava em Arthur.

Ele deu uma risada.

— Eu? Gentil? Não liga, não.

Ele deu um giro e me inclinou até quase o chão. E abandonou aquele ar de sério.

— Ei, você acha que esse vestido é bem forte? Parece que vai descosturar.

Agora sim, esse era o Arthur que eu conhecera bem.

—Ah, é? Pois vou lhe perguntar uma coisa — falei dando uma risada. — Quantos tubos de gel você gastou esta noite no cabelo? Três ou quatro?

Nós dois caímos na risada. Então, quando Chay acelerou um pouco o ritmo da música, puxei Arthur pelo salão como em um tango. Varamos pela pista de dança, forçando os outros pares a dar passagem livre.

Assim que a música retomou o ritmo, nos tínhamos ido parar do outro lado do ginásio. Não era muito iluminado, e ficamos dançando nas sombras. Arthur me apertou mais ainda e acabei passando os braços pelo seu pescoço.

De repente me senti completamente sem ar. Sabia que meu coração estava disparado e sentia o mesmo no pescoço dele.

Inclinei a cabeça para olhar seu rosto e vi sua boca bem perto da minha. Pareceu-me que o tempo tinha parado, e não conseguia me desviar da luz que se refletia em seus olhos. "É isso o que as outras garotas vêem", pensei. "Este é o Arthur que eu nunca tinha visto antes."

Aproximei minha cabeça dele e fechei os olhos. Senti o estômago meio enjoado, mas não conseguia me conter.

— Posso interromper? — ouvi uma voz em tom bem alto, gritando em meu ouvido.

— Pérola! — Arthur disse, se afastando de mim. — Eu estava indo procurar você.

— Pois então achou — disse ela, me ignorando de propósito.

— É isso aí — disse eu, e me afastei mais ainda de Arthur. — Vejo você mais tarde, Arthur.

Atravessei o salão pelo meio dos pares que dançavam, querendo encontrar Mel. Precisava desesperadamente de uma boa gozação, bem cínica, sobre como são ridículos esses bailes de escola.

No meio do caminho me virei e dei uma olhada na direção de Arthur. Ele estava me encarando, mas longe demais para que pudesse ver a expressão em seus olhos. Engoli em seco e me senti paralisada.

Nesse instante Pérola o puxou para beijá-lo, e toda a magia do momento se quebrou, Não sei dizer ao certo o que ocorrera entre ele e eu, mas esperava e rezava para que não acontecesse nunca mais.

— Que sufoco — disse Chay, horas mais tarde. — Sempre gosto de cantar para uma porção de gente.

Era quase uma hora da manhã e eu havia telefonado para minha mãe uma hora antes explicando que ia me atrasar. O baile acabara, mas Chay e o pessoal do Radio Waves precisavam desmontar e carregar os equipamentos.

— Vocês foram ótimos — disse eu, colocando um monte de cabos elétricos dentro de uma sacola. — Todo mundo adorou.

— O que posso dizer? Tenho música nas veias.

Chay pegou sua guitarra e sentou-se em uma das cadeiras de ferro. Ele tocou uns acordes de blues, cantarolando alguma coisa.

— O que mais posso fazer para ajudar? — perguntei, olhando para o palco quase vazio.

Estava exausta e ainda tinha de levantar cedo para tomar conta de Nina.

Chay esticou o braço e me pegou pela mão, puxando-me para uma cadeira a seu lado.

— Acabei de compor esse blues ‘Eu-não-quero-levar-Lua-para-casa’ — cantarolou ele, repetindo o acorde na guitarra.

Dei uma risada.

— Qual é, Mick Jagger. Meu pai vai chamar a polícia se eu não chegar em casa logo.

Quando Chay estacionou em frente de casa, aquela lâmpada na varanda estava acesa. Pude ver a silhueta de minha mãe, através da cortina, esperando por mim no sofá.

Ele desligou o motor e apagou as luzes do jipe. Virou-se no banco e esticou o braço, colocando a mão em minha cintura. Em seguida me puxou para mais perto e me beijou com força, como nunca tinha beijado antes.

No meio da noite escura, eu me sentia abrigada como em um ninho aconchegante. As imagens do jogo de futebol, do baile e mesmo da minha mãe esperando na sala simplesmente desapareceram. Eu prestava atenção apenas nos lábios, nas mãos e no som de nossa respiração.

Um calafrio subiu pelas minhas costas e cada parte do meu corpo tremia de excitação.

— Arthur — sussurrei, sentindo seu cabelo macio entre meus dedos.

No instante seguinte meu coração quase parou. Abri os olhos e me recusei a acreditar no que tinha acabado de falar.

Cada vez mais espantada, percebi que tinha chamado Chay pelo nome de Arthur. O que estaria pensando? Será que ele tinha percebido?

Afastei a cabeça um pouco para trás e olhei para o Chay. Ele me abraçou, apertando meus ombros com força. Não tinha ouvido que eu dissera o nome do Arthur. Uma enorme sensação de alívio bateu em mim. Mas não conseguia mais me concentrar nos beijos de Chay. O nome do Arthur não me saía da cabeça. Por que eu dissera o nome dele? O que tinha de errado comigo?

Balancei a cabeça levemente, tentando clarear os pensamentos. Raciocinando logicamente, tentei me convencer de que pronunciar o nome de Arthur não significava nada. Tinha acabado de vê-lo e estivera pensando nele.

— Não me canso de beijar você — disse Chay, segurando meu rosto com gentileza.

— Eu te amo — murmurei, encostando o rosto em seu ombro. Nunca havia dito antes essas palavras a um rapaz (exceto ao Arthur, mas era um caso diferente), e sempre imaginei sinos tocando e fogos de artifício explodindo nos céus quando a hora certa chegasse. Não sentia nenhuma dessas coisas com Chay, mas achei que era esperar demais. Naquele momento tinha certeza de que falava o que estava sentindo. Chay Suede era o meu destino. Ponto final.

Até o instante em que desliguei a luz de meu abajur de cabeceira, não tinha reparado que Chay não havia dito ‘eu te amo’ em resposta. Contudo eu tinha certeza de que diria — e logo.

— Você dançou a noite toda? — Nina perguntou, enquanto tirava sorvete do congelador.

Peguei duas taças e colheres.

— Não. A banda do Chay estava tocando, e então eu não tinha ninguém com quem dançar.

Nina deu um suspiro dramático.

— Bailes são tão românticos. Gostaria de ir.

Nos últimos meses Nina vinha se mostrando muito interessada nesse lance de garotos e namoricos. Ela sempre ficava me perguntando sobre Arthur e Chay e sobre "garoto que é amigo" e "namorado".

Ao chegar à casa da garotinha naquela manhã, ela estava pulando para cima e para baixo, morrendo de vontade de saber sobre o baile. Imaginei se em algum tempo eu teria encarado um Baile de Boas-Vindas na escola com tamanho otimismo. Contemplando o rosto meigo e contente de Nina, me senti uma mulher velha e azeda.

— Não se preocupe, você ainda irá a muitos e muitos bailes. Aposto que todo garoto da sua classe vai querer ser seu acompanhante no Baile de Boas-Vindas.

Coloquei duas bolas de sorvete na taça e passei para ela. — Arthur foi ao baile?

Desde que ela e suas amiguinhas começaram a se interessar por garotos, Nina tivera uma queda por Arthur.

— Claro. Ele foi com a namorada, Pérola.

Nina fez uma careta, deixando claro que não aceitava a idéia de que Arthur estivesse saindo com uma garota que ela não conhecia.

— Bom, mas pelo menos você dançou com ele?

— Dancei, uma vez.

Torci para que ela não percebesse que fiquei envergonhada. Pude sentir meu rosto ficando vermelho e quente só de lembrar o que tinha se passado entre o Arthur e eu, nos poucos minutos em que dançáramos ‘Garota dos olhos castanhos’. Isso era uma coisa que não estava nem um pouco disposta a discutir com Nina.

— Você acha que o Arthur me levaria ao baile?

Dei uma risada.

— Ele não é um pouco velho para você? Nina deu de ombros.

— Sou madura para minha idade.

Coloquei uma grande colherada de sorvete de chocolate na boca.

— Vou dar um toque para ele — respondi sorrindo.

Nina tomava o sorvete em silêncio e então olhou para mim com cara de séria.

— Você e Arthur vão se casar um dia?

Quase engasguei com o sorvete.

— Não!

Nina e eu já havíamos conversado muitas vezes sobre o fato do Arthur ser apenas um grande amigo meu, mas ela simplesmente se recusava a aceitar que ele não fosse meu ideal de namorado.

Nina me olhou pensativa.

— Bem, eu acho que você deveria se casar com ele. E eu seria a dama de honra.

Sabia que não adiantava discutir com ela, então apenas balancei a cabeça e revirei os olhos. Aquela menina precisava aprender muito sobre o amor.

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